Genealogia das Famílias de Goa

Família Abreu, Anjuna, Bardez

 

por Pedro do Carmo Costa

A família Abreu foi outra de grande antiguidade e  importância em Goa, tendo alguns dos seus membros obtido posições de destaque naquele Estado e em Portugal. Esta era originária da freguesia da Graça da Ilha de Chorão, Concelho das Ilhas, mas tendo a ilha sido assolada pela epidemia, esta família passou a residir em Anjuna, Bardez.

O solar desta família em Anjuna é um dos raros e mais antigos exemplos de casa de torre de defesa. A torre ainda existente nesta casa remete à arquitectura praticada em Goa nos séculos XVI e XVII[1].

Os Lobos de Bastorá, que já tinham relações de parentesco com os Abreus, passaram a representar esta família por se ter extingido na linha masculina. Esta representação aconteceu pelo casamento, antes de 1893, de Pedro Caetano José Lobo com a sua prima Virgínia de Abreu.

Gomes Catão descreve a origem da família nos Subsídios para a História de Chorão:

“De Dubenim-o-grande, estabelecida em Anjuna, de Bardês. Descende esta família de André de Abreu (faleceu antes de 1669) casado com Luzia Ferreira. Tinha cova perpétua no cruzeiro da igreja.  Assolada a ilha pela epidemia, residiu poucos anos em Ucassaim, onde era casada Josefa Maria de Abreu, da sua família, com António Caetano de Noronha, cujo neto, Dom Isidoro de Noronha (nasceu a 3/4/1815, ordenado em 1849, e falecido em 12/6/1877) foi prelado de Moçambique e arcediado da Sé de Goa”

I. André de Abreu, falecido antes de 1669, natural de Dubenim-o-grande, na freguesia da Graça, da Ilha de Chorão. Tinha cova perpétua no cruzeiro da igreja[2]. Casou com Luzia Ferreira, de quem teve dois filhos:

            II(1). Josefa Maria de Abreu, que casou com António  Caetano de Noronha, de Ucassaím. Deste casal foi neto Dom Isidoro Caetano de Noronha (nasceu a 3-4-1815; ord. em 1849; e faleceu a 12-6-1877) foi prelado de Moçambique e arcediago da Sé de Goa.

            II(2). José (Joseph) de Abreu, que segue.

II. José (Joseph) de Abreu, quando a ilha de Chorão foi assolada pela epidemia, a sua família mudou-se para Ucassaím, de onde era natural o seu cunhado. Casou com Sebastiana de Sousa, de quem houve:

            III(1). Matias João de Abreu, que segue.

            III(2). Domiciano José de Abreu, que em 1749 era capitão da 7ª Companhia da Legião de Bardez[3].

            III(3). Nicolau Francisco de Abreu, Oratoriano. Foi Lente da Sagrada Teologia e prefeito dos estudos no Real Colégio de Chorão (1766-79?)[4].

            III(4). Pedro Nolasco de Abreu, sacerdote, confessor geral por provisão de 2/9/1751.

III. Matias João de Abreu, provavemente residente em Dubenim-o-grande, freguesia da Graça da Ilha de Chorão. Foi Físico Mor interino do Estado da Índia[5]. Casou com Clara Felícia Pereira, de quem houve pelo menos dois filhos:

            IV(1). Manuel José de Abreu, que segue.

IV(2).  Filipe Nery de Abreu, sacerdote, ordenado pelo Arc. Santa Catarina na capela do Palácio de Goa (Sé) a 22-9-1792. Foi vigário encomendado de Pomburpá no impedimento do proprietário, por provisão de 25 de Outubro de 1802. No mesmo ano, passou a residir em Anjuna com seu irmão, e, em 1804, abriu aí a aula de filosofia.

IV. Manuel José de Abreu, casou em 1/6/1786 com Raquela Ferrão, de Anjuna, filha de Sebastião Ferrão e de Rita de Noronha, naturais e proprietários em Anjuna. Manuel José de Abreu estabeleceu-se em casa de seus sogros na aldeia de Anjuna. Presume-se que sua esposa era a herdeira desta casa, que passou a ser dos Abreus até a família se extinguir. Deste casamento houve pelo menos três filhos:

            V(1). Nicolau Casimiro de Abreu, que segue.

            V(2). André João de Abreu, sacerdote falecido em 18-11-59. Baptizado em Anjuna a 9-4-1787 de 12 dias, foi ordenado pelo Arc. Santa Catarina na capela do seu Palácio a 21 de Setembro de 1811. Autorizado a ensinar Teologia Dogmática e Moral, na Província de Bardês, por prov. de 3 de Janeiro de 1835, abriu no mesmo ano um curso desta cadeira, em Anjuna. (Vide Clero de Goa, pág. 188). Faleceu no bairro Soranto, em Anjuna, aos 18 de Janeiro de 1859 e foi sepultado na capela-mor do cemitério. Foi capelão do Presídio de Chaporá, lugar de que foi exonerado, a pedido, por P. P. de 16-12-1839.

            V(3). Sebastião Paulo Cândido de Abreu, sacerdote, nasceu em 25 de Julho de 1789 e, ord. pelo Arc. S. Galdino na capela do Palácio de S. Inês, a 4 de Junho de 1814, faleceu a 27 de Julho de 1863. 

V. Nicolau Casimiro d’Abreu, falecido em Dezembro de 1866. No seu obituário no jornal Ultramar[6], escreveu-se: A Casa dos Srs. Abreus é uma das principaes deste estado, e muito distincta na comarca de Bardês pelas virtudes que adornam os seus membros e pelo talento que os distingue. Casou com Ana Joana Maria Affonso, da família Afonso de Calangute[7], de quem houve pelo menos um filho:

            VI(1). Manuel José Felicíssimo d’Abreu, nasceu na casa dos avós maternos, em Calangute a 9/9/1813.  Foi considerado, ainda em estudante da Universidade de Coimbra, um talento em matemática[8]. Faleceu a 23/7/1836.  Sobre este génio, descreve Miguel Vicente de Abreu: “é de todos sabido que foi de talento prodigioso, premiado em Goa em 2 annos da antiga academia militar; chegou a Lisboa quando estava fechada a universidade de Coimbra por causa das osclilações políticas da época; pelo que matriculou-se no hospital de São José em Lisboa onde obteve o 1º prémio; e só em outubro de 1834 em poude matricular-se na universidade e examinou-se em julho de 1835 e ahi também obteve igual 1º prémio no 1º ano de matemática e superiores aprovações no grego, historia natural, zoologia e mineralogia que estudou conjuntamente com aquella sciencia: no 2º ano porém caiu doente e faleceu em Coimbra em 23 de julho de 1836 com sentimento universal. A respeito dos seus ascendentes se lê na sua biographia escripta pelo sr. T.A.P. Frias de Noronha o seguinte: “Foi filho de Nicolau Casimiro de Abreu e de Anna Joanna Maria Affonso; descendente de d’uma das principaes famílias de Bardes, contou na sua linhagem Mathias João de Abreu phisico-mor interino deste estado, o padre mestre Nicoulau Francisco congregado e 1º reitor indigena do seminário de Chorão; José António doutor pelo Achygimnasio de Sapiencia de Roma; D Felipe Nery, teatino, cujo saber e virtude todos reconhecem e finalemtne o seu educadror padre mestre André João de Abreu, professor de filosofia em Anjuna de Bardex””

            VI(2). Filipe Nery de Abreu, que segue

VI. Filipe Nery de Abreu, nasceu a 16/6/1828 e faleceu a 8/6/1882[9], advogado, casou com Joana Especiosa Lobo, de Bastorá, falecida em Janeiro 1891[10], irmã de Pedro Caetano Salvador Lobo, de quem houve pelo menos um filho:

VII(1). Manuel José A. F. C. de Abreu, que segue.

VII. Manuel José A. F. C. de Abreu, advogado, nascido em Anjuna, onde faleceu a 29/3/1906, já avançado de idade. Obteve licença para advogar no Julgado de Perném em 1871. Durante mais de 40 anos exerceu a sua actividade forense, primeiro em Perném e depois em Mapuçá, donde frequentava não poucas vezes os tribunais de Bicholim e de rondá. Muito versado em assuntos de jurisprudência administrativa e fiscal e outros ramos de direito, era o seu parecer procurado e acatado ainda por muitos dos seus colegas mais abalizados, que o tinham como uma sumidade. Exerceu diversas comissões de serviço público, como a de presidente da Câmara Agrária de Bardês, tabelião da mesma comarca, inspector das confrarias daquele concelho, juiz substituto e inspector de instrução primária. Deixou obra publicada. Casou com Berengária Fernandes, de Siolim, da família do Dr. José Gabriel Fernandes, Fidalgo da Casa Real, Fidalgo de cota-de-armas. Teve pelo menos:

            VIII(1). Nicolau Francisco de Abreu, que segue

            VIII(2). Cunegundes Leocádia Ana Maria dos Anjos de Abreu, nasceu em 1878, casou em 1893 com Hermínio Roque Inácio Xavier Pinto Lobo, nascido na casa dos seus avós maternos no bairro Orondo, na freguesia da Graça, de Chorão, aonde foi baptizado aos 5/6/1867, tendo como padrinho Caetano José Luís Artur de Gouvêa. Era de filho de Brás Bartolomeu da Vitória Pinto Lobo, e de Ana Mariana Leonilde de Gouvêa, neto paterno de Mariano Caetano Sebastião Lobo e Dona Especiosa Leopoldina Emília Constância Pinto, neto materno Pedro Salvador Luís de Gouvêa e de Dona Eliza Adelaide Baptista.

            VIII(3). ............... de Abreu, casada com Francisco d’Assis Rebelo.

            VIII(4). Bruno d’Abreu, falecido a 31/5/1916[11], foi o último membro masculino da família de Abreu, tendo, com o seu falecimento, passado a representação desta família à família Lobo de Bastorá.

VIII. Nicolau Francisco de Abreu, nasceu a 2/8/1877 e faleceu a 29/3/1906. Foi advogado por carta de 5/9/1882[12] e notário da comarca de Bardez (1879-80). Teve pelo menos uma filha: 

            IX(1). Virgínia de Abreu, que segue.

IX. Virgínia de Abreu, casou com Pedro Caetano José Lobo, de Bastorá, aonde segue a sua descedência, que passou a representar esta família.

 

Destroncados:

Em 1749, era capitão da 7.a Companhia da Legião de Bardês, Domiciano José de Abreu, filho de Joseph de Abreu e de Sebastião de Sousa. 

O outro ramo desta família descende de Gonçalo de Abreu, casado com Luzia Nunes, de Dubenim, cujo filho João de Abreu consorciou-se, em 14 de Fevereiro de 1618, com Grácia, filha de Luís de Noronha e de Grácia Pacheco, de Pandavaddó.

Padre Mestre D.  Nicolau Francisco de Abreu (... 1766-80 ...) Oratoriano. 

Foi lente da Sagrada Teologia e prefeito dos estudos no «Real Colégio de Chorão» (1766-79?). Vide os seus dados biogr. em A Voz de S. F. Xavier, de 8-9-1937, pág. 6 e de 27-10-37, pág. 74; e Noção de Alguns Filhos Distintos da lndia portuguesa, por M. V. de Abreu, pág. 79). Congregado, e primeiro reitor indígena do Seminário de Chorão, conhecido por correspondente do Marquês do Pombal.

Pe. Pedro N olasco de Abreu (. .' 1726-51 ...) Confessor geral, por prov. de 2 de Setembro de 1751. 

Pe. Nicolau Francisco de Abreu (...1776-79). Foi vigário encom. de S. Matias, por prov. de 22 de Junho de 1776 e depois vigário de Mapuçá (conc. de 31-3-1778). Faleceu em Janeiro de 1779.

A Noção de Miguel Vicente de Abreu dá-nos mais os seguintes elementos:

Mathias  João de Abreu, Físico mor interino do Estado da India (segundo Miguel Vicente de Abreu, na Noção)

Padre José António Abreu, doutor do Archyginásio de Sapiência em Roma

D. Filipe Nery Abreu, teatino cujo saber e virtude todos reconheceram 

Casou a 6/5/1899 com Ana Josefina Leocádia Salustiana Piedade de Sá, descria no título Brás de Sá, nascida em Calangute a 19/10/1872 e baptizada em 2/11/1872 pelo encarregado Padre José Maniel de Sousa, sendo seus padrinhos Augusto César de Noronha e sua esposa Salustiana Lilia de Abreu e Noronha, de Anjuna

Notícia de 16/10/1913 – faleceu em Ucassaim a 3/10 o sr Joaquim Francisco José de Sá, casado com D. Sofia de Abreu, de Anjuna. Faleceu com 63 anos de idade e era dos Sás de Siolim, família distinta, pai de António Filipe de Sá e do advogado Filipe José de Sá.

Ernesto Frias e Costa, casou com D. Evangelina de Abreu, de Anjuna, Bardez, que faleceu a 11/2/1916, de quem houve seis filhos, s.m.n.

Vida Nova 11/12/1916 – faleceu Evangelina de Abreu Frias, em Candolim, viuva de Ernesto Frias e Costa, com seis filhos. Ele é filho de Ana Elisa Maria Especiosa de Frias e de Paulo José da Costa, de Parrá.

Nicolau José de Abreu - Ultramar diz que Nicolau José de Abreu faleceu em Julho de 1913 – Ultramar de 21/7/1913).


[1] Extenso capítulo dedicado a esta tipologia no livro “Palácios de Goa” por Helder Carita, pág. 66.

[2] Subsídios para a História de Chorão, Mons. Gomes Catão.

[3] Francisco Xavier Gomes Catão, Subsídios para a História de Chorão, pág 117.

[4] Francisco Xavier Gomes Catão, Subsídios para a História de Chorão, pág 116. Mais dados biográficos em A Voz de S. F. Xavier, de 8/9/1937, pág. 6 ed e 27/10/1937, pág. 74 e em Miguel Vicente de Abreu, Noção de Alguns filhos Ilustres da India Portugueza pág. 79.

[5] Miguel Vicente de Abreu, Noção de Alguns filhos Ilustres da India Portugueza. pp5

[6] Ultramar, número 404, de 1866

[7] Hoje representada pela família Corrêa Afonso

[8] Extensa biografia no jornal “O Recreio” números 1, 2 e 3, de 1865.

[9] Ultramar de 19/5/1882

[10] Ultramar de 17/1/1891

[11] Jornal Ultramar de 24/8/1916.

[12] in, Subsídios para a História de Chorão, de FX Gomes Catão. Claramente deve haver um erro quanto à data de nascimento.